Capa do álbum 'A minha homenagem ao poeta da voz', de Selma Reis Locca Faria ♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – A minha homenagem ao poeta da voz, Selma Reis, 2009 ♪ Ouvir Selma Reis (24 de agosto de 1960 – 19 de dezembro de 2015) celebrar com solenidade o dom do canto ao dar voz a Minha missão (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1981) – em gravação que arrematou o álbum lançado pela artista em 2009 com 14 músicas do compositor e poeta carioca Paulo César Pinheiro – acentua o inconformismo com a precoce saída de cena dessa imortal cantora fluminense.

Selma partiu cedo, aos breves 55 anos de vida, e deu a impressão de que chegara tarde no mercado quando, em 1987, lançou o primeiro álbum de forma independente, Selma Reis, disco voltado para uma MPB que já não dava as cartas no jogo fonográfico.

Contudo, a voz grave da intérprete era tão potente e volumosa que Selma se fez ouvir ao longo dos anos 1990, fazendo ecoar reais emoções suburbanas em álbuns como Selma Reis (1990), Só dói quando eu rio (1991), Selma Reis (1993), Todo sentimento (1995), Achados e perdidos – Selma Reis canta Gonzaga Jr.

(1996) e Ares de Havana (1999).

A partir dos anos 2000, com a discografia ficando cada vez mais espaçada, Selma começou a trabalhar como atriz de novelas e musicais de teatro entre shows e álbuns cada vez mais raros.

Tributo a Paulo César Pinheiro, de título óbvio, o álbum A minha homenagem ao poeta do voz foi o derradeiro disco da cantora.

Foi disco condizente com a grandeza da voz de Selma, mas disco pouco ouvido por ter sido lançado de forma totalmente independente pelo selo da artista, Tessitura musical, quase sem distribuição nas lojas.

Com arranjos de músicos como o percussionista Robertinho Silva, o guitarrista Victor Biglione, o violonista Fernando Carvalho e os pianistas Cristovão Bastos e Paulo Malaguti Pauleira, o álbum A minha homenagem ao poeta da voz reconectou Selma com o tradicional universo musical da MPB após dois discos de aura sacra e repertório religioso, Sagrado (2007) e Maria mãe de Jesus (2008).

Antes de prestar a homenagem fonográfica ao poeta dos versos precisos, revelado como letrista em 1968 na I Bienal do samba, a cantora tinha gravado somente uma música de Paulo César Pinheiro, Porto santo, dramática parceria do compositor com Sueli Costa que abrilhantou o álbum de 1990 que dera projeção nacional a Selma com a gravação da canção O que é o amor (Danilo Caymmi e Dudu Falcão), propagada na trilha sonora da minissérie Riacho doce (TV Globo, 1990).

Ao dedicar disco inteiro ao cancioneiro do poeta Paulo César Pinheiro, Selma Reis priorizou títulos mais conhecidos dessa obra grande em qualidade e quantidade, dando voz a repertório formado majoritariamente por músicas lançadas ao longo da década de 1970 em vozes como as de Clara Nunes (1942 – 1983), Elis Regina (1945 – 1982), Marisa Gata Mansa (1938 – 2003) e Simone.

Selma se desincumbiu bem da missão, pondo a própria assinatura em músicas imortalizadas por essas grandes cantoras.

Sucesso de Clara, Banho de manjericão (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1979) já lavou a alma do ouvinte na abertura do álbum, ecoando o elo do Brasil com a África no arranjo de voz-e-percussão criado pelo baterista Robertinho de Recife.

Na sequência, o samba As forças da natureza (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1977) – outro sucesso de Clara Nunes, revivido na trilha sonora da novela Amor de mãe (2019 / 2020, TV Globo) – ganhou a simbólica adesão vocal do cantor Diogo Nogueira, como homenagem extensiva de Selma a João Nogueira (1941 – 2000), pai de Diogo e um dos parceiros mais relevantes do poeta letrista.

Já Cicatrizes (Miltinho e Paulo César Pinheiro, 1972), samba lançado nas vozes do MPB4, evoluiu em salão de gafieira nos sopros dos metais que também embalaram Passatempo (2009) – música então inédita composta por Pinheiro sem parceiro e ofertada pelo poeta para o disco da cantora – e Vou deitar e rolar (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1970), samba também formatado para salão de gafeira pelo arranjador Paulo Malaguti.

Intérprete que por vezes pecava pelo excesso, se avizinhando do terreno do over, Selma dosou os tons nesse tributo ao compositor.

Sem atenuar a densidade de canções como Bodas de vidro (Sueli Costa e Paulo César Pinheiro, 1972), o salutar comedimento vocal da cantora valorizou os registros do Bolero de Satã (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976) e do samba-canção Sem companhia (Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro, 1979).

Como se antevisse que o álbum A minha homenagem ao poeta da voz seria o canto de cisne da carreira fonográfica, Selma Reis se cercou de grandes músicos neste disco imponente.

Aliada ao toque do acordeom de Marcos Nimritcher e à marcação marcial de percussões, a trama do violão de 12 cordas do arranjador Victor Biglione elevou a abordagem de Cordilheiras (Sueli Costa e Paulo César Pinheiro, 1979), música que Simone já apresentara de forma lapidar há então 30 anos.

Após acentuar a sensualidade quase lânguida do samba Tô voltando (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, 1979) e seguir o roteiro etéreo de Viagem (João de Aquino e Paulo César Pinheiro, 1973) em tempo de delicadeza, Selma desencavou Velho arvoredo (Hélio Delmiro e Paulo César Pinheiro, 1976), abriu espaço para o poeta recitar os versos de Ofício – poema merecedor da 14ª das 15 faixas do disco – e fez o samba-exaltação Portela na avenida (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, 1981) desfilar com arrepiantes trinados operísticos de Selma e com a voz da mangueirense Beth Carvalho (1946 – 2019) em participação coerente com o fato de Beth sempre ter dado voz a sambas de bambas da velha guarda da escola de samba Portela.

Ao fim, o canto de Minha missão fechou o disco com propriedade.

E foi simbólico que essa gravação tenha sido a última faixa do último álbum de Selma Reis, mensageira da música que acendia emoções no coração do povo quando soltava voz que se calou muito cedo, mas que ecoa na eternidade das canções.